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A garota da 12° andar


  

O medo tomava conta do meu corpo. 

Estava sozinha no meio daqueles corredores intermináveis e idênticos. Ainda assim ouvia o crescente burburinho dentro das salas de aula, o apito do elevador e passos nos corredores. Só que não havia nada nem ninguém para fazer aqueles sons. Não tinha ideia do que acontecia.

Corri para as escadas de incêndio. Não me importava se estava no décimo andar, só queria sair daquele lugar. Dei três ou quatro voltas na escada, mas quando parei para tomar fôlego e ver quantos andares tinha descido, não saí do lugar. Ainda estava no décimo.  

- Assustada? – uma voz fria surgiu.

Senti um arrepio na nuca, mas ao me virar não vi ninguém ali.  

- Qual o problema? – A voz voltou a sussurrar no meu ouvido.  

- Ah!  - Tapei os ouvidos desejando que ela se calasse. 

Sai das escadas de volta ao corredor. Tinha que ter uma maneira de sair dali, nem que fosse por uma janela, ou… um elevador!  Podia pegar o elevador. Apressei-me até o mais próximo e a porta se abriu, pulei para dentro e apertei o botão do térreo. Ele se acendeu fechando as portas. Olhei para mim mesma no espelho. Estava descabelada, perdi a blusa de frio e tremia igual vara verde.  

- Isso é ridículo. O que está acontecendo? Será que aquela coxinha tinha ervas especiais? Nossa eu vou matar o jeová se for isso.  

O som mágico das portas se abrindo foi um sopro de ar fresco. Até eu me virar e descobrir que não tinha saído do lugar e agora tinha uma mulher na minha frente. Ela sorriu e pulou pra cima de mim. E então tudo se apagou.  

  

  

Algumas horas antes 

  

- Está falando sério? Tipo, vocês realmente acreditam nessa história?  

Levantei para arrumar minhas coisas na mochila enquanto todos na mesa ainda estavam calados prestando total atenção no que nossa veterana falava.  

- Sim. – Ela afirmou. – Estou dizendo a verdade, tem até notícia de jornal sobre esse acidente.  

- Tá que seja verdade então. O que a morte de uma caloura a anos atrás tem a ver com a gente? – Joguei a mochila nas costas e esperei enquanto os outros faziam o mesmo para sairmos.  

- Como veterana tenho que lhes dar dois avisos, o primeiro é que o elevador onde essa menina morreu é proibido, quase ninguém usa ele. Praticamente um tabu entre os alunos. 

- Mas? – O cara do meu lado perguntou.  

- Sem mais. A segunda coisa é: Não andem sozinhos. Nunca. Sempre tenha alguém do seu lado. Nem que seja o faxineiro.  

- Por que? – Uma garota perguntou. Seus olhos estavam arregalados.  

- Houveram diversas mortes e desaparecimentos depois do acidente dela e, dizem por aí que o fantasma da menina ainda vaga pelos corredores da faculdade, à espera da próxima vítima. – A veterana deu uma corrida para conseguir segurar o elevador.  

- É sério isso? Quer dizer, a garota morre em um acidente e vira um fantasma? Pra que? Que assuntos inacabados ela tem, não pagou a mensalidade?  

Entramos no elevador, nos apertando para que todos coubessem.  

- Ou ela deve assistir as aulas de penetra para terminar o curso. – Comentou outro e as risadas aumentaram.  

- Olha se não querem acreditar nisso tudo bem. Eu sugiro que não brinquem com coisa séria. Para os céticos, deem um pulinho na biblioteca. Foi notícia de capa na época. 

Chegamos ao térreo e a veterana se despediu, saindo na frente.  

- Mais alguém acredita nessa história? – O cara atrás de mim perguntou.  

- Não. – Eu e mais alguns responderam em uníssono.  

- Acredito. – Respondeu a garota de antes. – Prefiro cuidar agora do que me arrepender depois. 

- Então tá, senhora cheia dos cuidados. – O outro garoto riu.  

Passamos pela catraca ainda rindo e conversando sobre a lenda urbana da faculdade, quando meu estômago roncou. Olhei em volta e vi uma barraca vendendo salgado.  

- Quem está afim de um salgado? Vou comer alguma coisa antes de seguir viagem.  

- Opa, eu topo. – Jonas, ao menos acho que esse era o nome dele, veio comigo assim como mais um cara e duas garotas.  

Pegamos nosso lanche e ficamos no canto do portão comendo e contando o que achamos da primeira semana de faculdade. Não pude deixar de notar o tal de Jonas, ele não era uma beldade, tinha algumas espinhas no rosto e uma barba que sofria para crescer. Porém aquela covinha que aparecia quando sorria e os olhos azuis... ai...ai.  

- Pergunta: Alguém mais achou estranho um veterano vir falar com a gente só agora?  

- Não. Porque ela nem devia estar aqui – respondi voltando ao mundo real. – Os veteranos entram uma semana mais tarde que os novatos.  

- Sério?  

- Sim. Tenho um amigo que está no quarto semestre de pedagogia e me passou a informação.  

- Você fala como se fosse uma coisa de espião recebendo notícias do informante. – Jonas brincou.  

- Pense da maneira que ficar mais interessante. – respondi terminando de comer.  

- Mudando de assunto, o que vocês acharam do professor de hoje? Eu o achei meio... como vou dizer.  

- Estranho. – A menina do meu lado respondeu. – Ele fala como se já estivesse morto.  

- É verdade. Achei meio sem sentido ele mandar a gente fazer aquela provinha – Jonas reclamou.  

- Acho que foi mais pra ver em que pé estamos, pra ele saber por onde começar. – Joguei o papel do salgado na lixeira mais próxima e coloquei a mão no bolso de trás para pegar o celular.  

Ele não estava lá. Apalpei o outro e nada. Tirei a mochila já desesperada, procurei nos bolsos de fora, na parte de dentro. Não havia nada. Ele não estava em lugar algum.  

- Tudo certo aí? – Jonas perguntou.  

- Não, esqueci o celular na sala, eu acho, vou lá buscar. – Coloquei a bolsa no ombro de novo e corri para dentro. 

A praça de alimentação estava lotada e havia muitos alunos saindo, então teoricamente eu não estava sozinha né? Espera eu estou mesmo acreditando nessa história da carochinha?

Entrei no elevador vazio e apertei o botão do décimo primeiro andar. Meus pés tamborilavam e o silêncio me incomodava. Finalmente as portas se abriram e corri, o cara das chaves se aproximava da minha sala. 

- Ei, espera moço – chamei. – Eu acho que esqueci meu celular aí dentro deixa eu entrar rapidinho?  

- Depressa, vou fechar a outra e já volto. – Ele abriu a porta para mim e passou para a próxima.  

Entrei na sala e fui direto para minha mesa, ele não estava ali. Procurei no chão e nada, cadeiras, mesa do professor até no beiral da janela, nenhum sinal dele.  

- Mas que merda! – xinguei saindo da sala. – Moço você sabe pra onde levam os itens... ué – O cara tinha sumido.  

Um segurança, deve ter algum nesse andar. Rodei os corredores de cabo a rabo e não havia ninguém, nem a lanchonete, presente em todos os andares, estava aberta. Nenhum professor na sala, nem zelador ou faxineira. Parecia que eu era a única ali.  

Ia em direção aos elevadores quando ouvi um estrondo vindo do pequeno corredor que ligava os prédios. Me virei assustada com o barulho e parei para ver se algo mais acontecia. O coração batendo forte no peito.  

- Vou ou não vou? Vou ou não vou? Vou não.  

Dei meia volta e quando estava a alguns metros dos elevadores outro barulho. Parecia algo se rompendo, como uma corda. Olhei para trás mais uma vez e as luzes daquele lado tinham se apagado. Um som baixo quase um sussurro ecoava pelo corredor até mim. Não conseguia entender o que ou por que aquilo aconteceu, mas o medo tomou conta do meu corpo.  

O silêncio foi quebrado com um crescente burburinho vindo das salas, assim como o apito do elevador e os passos nos corredores. Contudo, não havia ninguém para causar aqueles sons. Estava completa e desoladamente sozinha, sem ter ideia do que estava acontecendo.  

Corri para as escadas de incêndio, não me importava se estava no décimo primeiro andar, só queria sair daquele lugar. Dei três ou quatro voltas na escada, mas quando parei para tomar fôlego e ver quantos andares tinha descido, não tinha saído do lugar. 

Senti um arrepio na nuca, mas ao me virar não vi ninguém ali.  

- Qual o problema? – A voz voltou a sussurrar no meu ouvido.  

- Ah!  - Tapei os ouvidos desejando que ela se calasse.   

Voltei para o corredor procurando outra saída. Qualquer uma serviria, até mesma a janela. De repente escuto um apito. O elevador! 

Corri para o mais próximo, a porta se abriu como se me abraçasse. Pulei para dentro e apertei o botão do térreo. Ele se acendeu fechando as portas. Respirei fundo, sentindo as pernas bambas. Olhei para mim mesma no espelho e percebi o quanto estava descabelada, perdi a blusa de frio e tremia igual vara verde.  

- Isso é ridículo. O que está acontecendo? Será que aquele salgado estava batizado?  

O som mágico das portas se abrindo foi um alívio imensurável, até me virar e descobrir que não tinha saído do lugar. Do lado de fora uma mulher me esperava e a última coisa que vi foi seu sorriso predatório. 

  ***

- É isso por hoje, estão dispensados.  

Acordei com o som das cadeiras sendo arrastadas. Ainda suava frio com o que acontecera, mas tudo parecia... espera desde quando umbigo de fora voltou a ficar na moda? Olhei ao redor prestando atenção nas pessoas, todas usavam roupas antigas, até boinas. A sala também estava diferente, nada de mesas duplas com computadores. Estranho.  

Me levantei com eles e os segui para fora da sala, quando ouvi um grupo conversando à minha frente.  

- Vamos fazer hoje?  

- Sim, pedi para as meninas trazerem algumas calouras e nós vamos levar os caras.  

- Mesmo lugar do ano passado?  

- Claro. Tenho um colega da segurança que não é X9. Então tá de boa.  

- Fecho.  

Do que eles estão falando? E por que iam precisar de um colega segurança? E quem ainda fala x9? Continuei os seguindo enquanto desciam pelas escadas rolantes, agora falando sobre coisas aleatórias. A placa na parede indicava o décimo andar, então tinha dez andares para descobrir o que tinha acontecido.  

Quando alcançamos o oitavo, já comecei a pensar que aquilo tudo devia ser algum devaneio meu, que tinha cochilado no trem voltando para casa e sonhado com algum filme antigo que vi. Só que de repente o cenário ficou desfocado, tudo ficou escuro e eu fui erguida no ar só para depois ser jogada no chão com todas as forças.  

  ***

Despertei na sala. Mesmo lugar, mesmas pessoas.  

- Mas que...  

- É isso por hoje estão dispensados. – Assim que o professor terminou de falar os alunos começaram a sair.  

Calma aí. É o mesmo dia? Bem provável, todos estavam com as roupas de antes. Então isso era o que? Um replay? Um sonho? Uma alucinação? Com certeza aquela coxinha estava batizada.  

- Com licença pode me ajudar? – Fui até um cara que estava perto de mim e minha mão passou direto pelo braço dele.  

- Mas que porra é essa? – Estiquei o braço na direção das outras pessoas e a mesma coisa aconteceu. – Meu deus.  

Corri para fora da sala. Aquilo era um sonho, só podia ser um sonho. Fui na direção das escadas rolantes, ainda desviando das pessoas em um reflexo automático, até esbarrar em alguém e cair uns quatro degraus dando de cara no chão. Assim que me recuperei da queda olhei para cima, havia uma garota parada na escada me encarando assustada.  

- Pode me ver? – Levantei e tentei ir até ela. – Por favor, o que está acontecendo? O que está havendo?  

Ela ficou em choque, o peito subindo e descendo rapidamente.  

- Fala comigo, o que é esse lugar? O que – O ar foi sugado dos meus pulmões, o chão sumiu sob meus pés e eu apaguei.  

  ***

- É isso por hoje, estão dispensados.  

Acordei novamente com as falas do professor, o coração doía no peito. Dessa vez antes de me levantar olhei para todos na sala, tinha que achar aquela menina, e por que só ela conseguia me tocar? Não me lembro de tê-la visto em algum momento da minha vida pra sonhar com ela agora. Por que estava tudo se repetindo? Qual o propósito? O que eu tinha... De repente as vozes conhecidas de dois irmãos ecoaram na minha mente e as peças começaram a se encaixar.  

“Um fantasma está condenado a reviver o momento da sua morte, enquanto não for libertado”  

Será que aquela garota era um fantasma? Mas se fosse não era pra eu conseguir tocá-la. A não ser que eu esteja dentro das lembranças dela.  Tá isso daria sentido a algumas coisas, mas a pergunta do milhão é: Por que me arrastar para as suas memórias? Ela queria que eu a libertasse? Como? Do que? Desse limbo atemporal? Ou talvez...   

Esperei até que visse a garota sair e então a segui. Fiquei alguns degraus atrás dela na escada rolante, observando de perto cada um dos seus movimentos, mas ninguém a olhava, falava ou sequer percebia sua presença. Mantendo sempre o olhar baixo, estava sozinha. Não. Essa não era a palavra, estávamos cercadas de pessoas, ela estava solitária.  

De repente uma garota apareceu ao seu lado, as duas conversaram até chegar ao térreo e só então se despediram. A partir daí pude perceber a cena quase que em câmera lenta, a garota “popular” voltou ao seu grupo e saíram dali sorridentes passando direto pela menina que a pouco estava conversando tão concentrada. Esta olhou aquilo como se já tivesse aceitado. “É assim mesmo. Tudo bem. Pelo menos falaram comigo”  

Então tudo foi sugado para a escuridão novamente.  

  ***

- É isso por hoje, estão dispensados.  

Mas que inferno!  

De novo isso? Aquela garota não morreu descendo as escadas, porque raios eu continuo vendo esse dia? Tinha que falar com ela de qualquer maneira e antes de chegarmos ao térreo. Sai da sala seguindo o fluxo de pessoas e fingi estar amarrando o cadarço até ver ela passando. Me levantei rapidamente e fiquei a uns dois degraus atrás dela. Olhei em volta e vi um cartaz pendurado em uma das colunas sobre um evento que teria em alguns dias. Acho que isso vai servir. Passei direto pelas pessoas e parei ao seu lado.  

- Com licença pode me ajudar? – Chamei sua atenção tocando em seu ombro.  

Me olhou assustada, sem entender por que alguém estava falando com ela.

- Eu sou nova e estou vendo aquele cartaz em todo lugar, só que eu estou boiando. Você sabe o que é?  

- Eu... é... – A garota olhou para um cartaz, depois para mim. – É um evento que vai ter semana que vem. A exposição de fotos da turma de fotografia do último semestre.  

- Há! Que massa. E a gente pode ir? É aberto pro público?  

- Sim... eu acho que sim. É só ler o cartaz que você vai entender como funciona.  

Acelerou o passo para sair de perto de mim. De repente o chão começou a tremer e senti que aquilo aconteceria de novo. Há, não! Você não vai fugir de mim não.  

- Olha desculpa ficar te amolando, mas é que eu não me juntei a nenhum grupo e achei que seria legal arrumar uma amiga.  

Ela parou de andar e tudo estacionou junto. As escadas, as pessoas, os sons. Fingi não reparar que só nós duas ainda nos moviamos.   

- O que disse? – Suas mãos apertaram as alças da mochila.  

- Disse que estou sozinha e pensei que pudéssemos ser amigas.  

Ela me encarou.  

- Está falando sério?  

- Sim. – Me arrependi das palavras no momento em que elas saíram da minha boca.  

- Claro, por que você já deve ter tentando se encaixar nos outros grupos, não deu certo e aí decidiu falar com a garota solitária como seu último recurso.  

- O que? Claro que não, não foi isso que eu quis dizer.  

- Foi sim! Acha que sou uma idiota? É assim que todos vocês funcionam. Falando palavras bonitinhas e carinhosas pra nos enganar.  

- Eu quero ser sua amiga. Por que não acredita em mim? – Gritei mais alto.

A garota me olhou furiosa, a temperatura do ambiente ficou congelante e eu tremia. Ainda assim não desisti.  

- Me conta o que aconteceu - implorei.   

- Te contar? Por que faria isso?  

- Por que é isso que amigos fazem, dividem seus medos - minha voz tremula mal saia da garganta. 

- Não preciso dividir meus medos. Não temo mais nada. – Ela se aproximou de mim agarrando meu pescoço. – Você vai dividir a eternidade comigo...amiga. Nunca vai voltar pra lá, você é minha agora. Não era isso que você queria?  

  ***

Dessa vez abri os olhos em um lugar diferente. Não havia sala de aula cheia nem professor, era apenas eu a escuridão total. Não conseguia ver um palmo à minha frente e meu corpo parecia pesar uma tonelada. Por tanto, só me restou ficar deitada no chão gelado movendo minhas mãos que eram as únicas coisas que pareciam ainda estar funcionando. O que descobri com esse limitado recurso de exploração? Que havia duas paredes tão geladas quanto o chão e eu podia alcançá-las. Forcei os músculos o máximo que conseguia. Tinha que levantar e sair dali a qualquer custo. 

- Algum problema? – Uma voz reverberou pela escuridão. – Não consegue se levantar?  

- Por favor. Me tira daqui eu posso te ajudar, deixa eu 

- Ninguém pode me ajudar. – A voz dela agora estava na minha orelha. Senti sua mão fria segurar meus dedos. – Sente isso? O meu toque?  

- Sim... – respondo, segurando choro.  

- É a última vez que vai sentir isso. 

Então me soltou, deixando que a escuridão voltasse a me tomar.  

  ***

Não sei quanto tempo passei deitada ali no escuro, completamente sozinha com o som do meu coração como única companhia. Mas foi o suficiente para perceber a menor mudança no ambiente e começou com o som de passos. Muitos passos, vindo de todas as direções. Depois foi uma luz fraca, que ganhou força e de repente eu não estava mais no pequeno cômodo, estava deitada em um lugar muito maior com pessoas indo e vindo. Percebi claramente que não eram reais, seus movimentos deixavam para trás rastros de fumaça. 

Forcei o corpo a se levantar, dessa vez ele funcionou e eu consegui me sentar. Foi quando percebi duas coisas: as pessoas passavam direto por mim, sem perceber que estava ali. A segunda, havia outras sentadas como eu, os corpos sólidos e os olhos baixos. 

- Você é nova – uma voz ao meu lado fez com que eu pulasse de susto. – Desculpa, te assustei?  

- É claro. Quase morri do coração – reclamei. 

Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar.  

- Isso é irônico. Já que todos aqui já estão mortos.  

Naquele momento tudo ficou em câmera lenta.  Eu estava morta? Assim... morta mesmo? Mas...  

- Não, eu.... eu não estou morta. Isso é só um sonho esquisito.  

- Querida, você morreu. Ninguém pode chegar aqui ainda vivo.  

- O que? Não.... eu não morri. E que lugar é esse?  

- É o limbo. Onde todos que ela matou acabam.  

- Ela?  

- Sim. O fantasma da caloura. Não te contaram a história? – Ele inclinou a cabeça preocupado.  

- Acho que sim..., mas... não sei... eu.  

- Você precisa tomar um ar. Vem comigo. – Ele segurou minha mão e saiu andando comigo.  

Para onde eu não sabia, mas repentinamente o chão começou a ganhar textura, assim como as pessoas passaram a ganhar solidez e então estávamos no campus de novo.  

- Como... o que? – Não conseguia dizer uma única sentença.  

- Está nas minhas lembranças - explicou. 

- O dia da... 

- Que eu morri. Sim. Pode falar, eu não me importo mais. – Ele sorriu revelando duas covinhas por baixo da barba por fazer e aquilo fez meu coração falhar uma batida. Já tinha visto aquele sorriso em algum lugar.  

- O que aconteceu? – perguntei, tomando coragem.  

- Eu trabalhava no campus como segurança. Um dia fui escalado para o turno diurno. – Ele parou um momento observando suas lembranças. O dia estava ensolarado, os alunos iam e vinham tranquilamente. – Sabe eu não pude fazer uma faculdade, comecei a trabalhar bem novo, mas sempre passava aqui em frente, via esses prédios enormes, esse campus lindo, só que não podia nem chegar perto da portaria. Então de bico em bico eu virei segurança e de repente... pá!  

Eu pulei com outro susto.  

- Estava entrando pelo portão da frente – adivinhei.  

Ele confirmou com um meneio de cabeça.  

- Eu adorava meu serviço, de verdade. Mas enfim, eu ouvi de uma aluna sobre essa lenda do prédio D e não acreditei. Só que uma vez fui averiguar a denúncia de outro aluno sobre um casal que estava se divertindo no décimo segundo andar e quando cheguei lá não os encontrei, não achei nada no andar.  

- Ela... 

- Sim. Depois disso só lembro de uma grande confusão e de ficar preso naquele lugar escuro.  

- Sinto muito. 

- Tudo bem. Não sinta por mim, sinta pela garota que eu deixei esperando no encontro.  

Meu coração se estilhaçou com o que ele falou, só que surpreendentemente ele estava sorrindo. Seguimos pelo campus até o prédio D, onde ele me levou para a biblioteca. Passamos pela porta dos funcionários e fomos até uma prateleira dos fundos.  

- Jornal interno do campus.... 2001... achei. – Ele puxou uma caixa da prateleira, colocou no chão e me deu um deles. – Está na página sete. 

Abri o jornal e lá estava. A foto dela ocupava um canto insignificante, com os seguintes dizeres. “Corpo de caloura é encontrado no campus. Polícia suspeita que foi suicídio”  

- Suicídio?  

- Uma justificativa fácil para um caso sem importância  - falou.

- É uma vida. Uma garota morreu e é sem importância? – Minha vontade era de socar quem tinha escrito aquilo e matar os policiais.  

- Você viu a matéria de capa? – Neguei, fechei rapidamente o jornal e me assustei com o que vi. – Ninguém estava ligando para mais nada naquele ano.  

Em letras garrafais junto com uma foto que ocupava a página inteira quase, estava escrito: “EUA SOFRE O MAIOR ATAQUE DA HISTÓRIA”. Logo abaixo em letras menores. “Terroristas atacam as torres gêmeas em Nova York” 

- Isso...  

- Quase 3 mil mortos, contra uma. O que acha que vai aparecer na primeira página?  

- Já entendi. – Guardei o jornal de volta na caixa. – Mas ouvi que ela morreu em um acidente e aqui diz outra coisa. Por que... 

- Acidente? - ele me interrompeu surpreso. 

- É...  

- Não, ela não morreu em um acidente. Foi no trote da turma dela - contou. 

- Que espécie de trote pode causar a morte de alguém?  

- Eu não sei bem como é o trote, isso só é compartilhado de veterano para veterano. Mas foi por causa do trote ou durante ele.  

Abri o jornal mais uma vez, procurando por informações adicionais. Porém, não havia mais nada.  

- Você era da mesma época que ela?  

- Quase. Morri em 2002.  

- Então você foi o primeiro que ela levou? – Ele assentiu pegando o jornal da minha mão e devolvendo a caixa ao seu lugar. – Você nunca tentou voltar? Ou sair daqui?

- Claro que tentei. Mas depois que o segundo apareceu, o terceiro, o quarto, eu percebi que já era tarde demais para mim.  

- E libertá-la? Um fantasma precisa se libertar do que a prende na terra - insisti. 

- É um plano, mas como pode perceber. Estamos mortos.  

- Não estou morta! – gritei, largando-o para trás e saindo da biblioteca.  

- Tudo bem. Leva um tempo para aceitar. – Ele me seguiu 

- Não tem nada pra aceitar. Preciso me concentrar, o que eu sei até agora? Que ela era tímida, participou de um trote e em algum momento sofreu o acidente no elevador.  

- Tem algo faltando. – Ele cruzou os braços pensativo.  

- Quando e como ela pegou você?  - pergunto. 

- Eu subi pelo elevador dos fundos, os alunos não costumam usar muito ele. Acho que eu devo ter tido algum infarto fulminante. 

- Estava sozinho? - pergunto.

- Sim. Por que?  

- Por que eu também estava. - Confirmado o elemento em comum das vítimas.   

- E? -  questionou, sem entender nada.   

- E que acho que ela só pega pessoas que estão andando sozinhas, ou que parecem solitárias. Você, eu, os outros muito provavelmente também.  

- Certo, o “como” já temos. Agora por que?  

Olhei ao redor. Todas aquelas pessoas andando como se nada estivesse acontecendo, indo para suas aulas, sentadas conversando tranquilamente. Era um dia corriqueiro. Comparei com as lembranças que ela me mostrou, mas não conseguia lembrar de nada que.... a nossa, não pode ser isso.  

- Acho que sei. Ela pega pessoas sozinhas, porque ela está sozinha. Quer dizer, estava.   - Como assim?  

- Escuta, quando ela te pegou você viu as memórias dela?  

- Não. Eu acordei direto naquele lugar. O que você viu?  

- Ela, eu a vi na sala de aula, saia normalmente com o resto da turma só que solitária.  

- Então... ela pega pessoas iguais a ela? Em uma espécie de livramento torto?  

- Talvez. Mas não acho que seja isso. Tenho a impressão que a coisa é mais embaixo.  

- E como vai fazer descobrir isso? Não dá  

- Posso te pedir uma coisa? – ignorei sua pergunta. – Preciso que me mostre como você morreu.  

- O quê? – Ele pareceu afetado.  

- Você foi o primeiro que ela levou, pode ser que tenha alguma pista ou sei lá, qualquer coisa. Por favor.  

- Por que não vai reviver a sua? 

- Já disse que eu não morri droga!  

Ficamos nos encarando como se testássemos quem desistiria primeiro. Eu ganhei.  

- Certo garota - suspirou derrotado. - venha comigo. 

Nós atravessamos a praça de alimentação até uma área menos movimentada. Ali havia três elevadores, pegamos o do meio que já nos esperava.  

- Sabe o que eu reparei? Você não me disse seu nome.  

- Fantasmas não precisam de nomes. Nomes dão poder a eles. – Ele respondeu sério.  

Não voltei a falar, sabia quando ficar quieta. Finalmente o elevador parou no décimo segundo andar e nós descemos. De repente ele ficou tenso e não conseguiu dar sequer um passo.  

- Ei – chamei segurando seu braço. – Você consegue. Preciso que continue.  

- Por que? Você já morreu, não tem por que eu ter que passar por isso de novo.  

Minha vontade era de gritar com ele novamente.  

- Então faça isso pelos outros. Por todas aquelas almas que estão presas no limbo dela. Me ajude a libertá-las! 

Ele ponderou, olhando entre mim e o corredor à nossa frente.  

- Você não tinha um encontro? Precisa terminar o serviço logo para encontrar com a garota.  

- Ela tem algo importante pra me contar… É feio deixar ela esperando, não é? 

- Sim. É sim.  

Ele me lançou um sorriso de alguém que sabia que tudo era mentira, mesmo assim respirou fundo e andou. Ele passou pelo corredor e saímos na área das salas. Atravessamos todo o andar até as salas vazias do outro lado.  

- É ali - apontou para um porta escura, quase escondida a nossa esquerda. 

Aproximei-me e olhei pelo vidro para o lado de dentro. 

- Trouxe uma amiga? – escutamos a voz dela. 

Nos viramos assustados com seu aparecimento repentino. Estava nos seguindo?  Não importa, era minha chance de arrancar algo dela.   

- Quero falar com você  - pedi. 

- HAHAHA! - sua risada ecoou até meus ossos. -  Falar comigo? Você não tem o que falar comigo.  

- Tenho sim e você vai me ouvir! – Ela arregalou os olhos. – Sei por que faz isso. Sei por que pega essas pessoas.  

- Você...  

- Por que está sozinha - a interrompi. - Estava assim antes de morrer e continua assim depois. Pega essas pessoas para suprir o vazio que está dentro de você.  

- CALE A BOCA! – Ela voou na minha direção, bateu contra mim me prendendo na parede. – Você não me conhece, não sabe o que fala.  

- Sei sim. Você se matou – provoquei. – Se matou por que estava cansada de tentar, você desistiu é uma covarde.  

- Não devia me provocar.  

- Por que não? Já estou morta né e eu sempre falei a verdade, e você foi uma covarde - repeti. - E ainda prejudicou a todos por causa do seu showzinho.  

- Não foi assim que aconteceu! NÃO FOI! – gritou se afastando, as mãos seguravam a cabeça como se doesse muito.  

- Então mostra pra mim o que aconteceu! - berrei, indo até ela. – Me mostra a verdade. 

Ela agarrou minha mão e fui arrastada para a escuridão mais uma vez.  

  ***  

Quando a luz voltou a dar forma às coisas, estava sozinha em um elevador. Não, eu estava nas memórias dela de novo, só que dessa vez aparentemente vivendo na pele o que aconteceu.  

- O desafio é simples. – Começou a mulher do lado de fora. - Vamos passar um saco com números, estes são os andares para os quais cada um deve ir. Lá vocês precisam ficar, por 20 minutos. No fim do tempo é só voltarem para cá. 

Explicou rindo.  

- Só isso? - uma voz masculina perguntou, talvez um dos outros calouros. 

- Mas é claro que não. –  Um dos homens se afastou do grupo e veio até ela que pegou um papel dentro do saco. – Em cada andar terá um objeto que vocês precisam achar e pegar nesses vinte minutos. Se não conseguirem o elevador vai voltar para cá, vocês ficarão sozinhos e considerem sua vida universitária... arruinada.  

Senti-a engolir em seco, olhamos o papel e ele indicava o décimo andar.  

“Por que tão alto? Por que não podia ser no segundo andar?” Ela pensava. Suas mãos estavam para trás tentando disfarçar os tremores.  

- Boa sorte! - falaram em uníssono. 

Com a mão fria como de um cadáver ela apertou o botão do andar correspondente. As portas se fecharam e o elevador tremeu ao começar a subir. Não havia música ambiente e estava tão nervosa que precisou se apoiar na parede para não cair. Piorou quando as portas se abriram no décimo andar. Estava tudo escuro e a única fonte de luz era o próprio elevador, mesmo assim ela saiu.   

As pernas fracas andaram poucos metros antes de precisar parar. Olhou em volta procurando o tal objeto. Onde ele poderia estar? As salas eram trancadas após o final das aulas. Talvez no banheiro, será que eles ainda estavam abertos? Com a esperança de que estivesse lá, foi primeiro ao banheiro feminino, ambas as portas trancadas. Tentou o masculino, mesma coisa.  

- Escadas. Deve estar nas escadas. – Falou em voz alta.  

Andou em direção às escadas, de olho no relógio para não perder o tempo. Quando a alcançou se debruçou sobre o corrimão, porém não viu nada nos degraus abaixo. Abriu o celular, a pequena tela iluminando nem um metro ao seu redor, ainda assim subiu um lance de escada e encontrou o objeto: uma lanterna. 

- Será que funciona? – A pegou e para sua surpresa, funcionava perfeitamente.   

O momento de felicidade rapidamente foi substituído por terror quando ela ouviu o apito do elevador.  

- Não.  

Se virou para voltar ao seu andar, mas alguém bateu às portas de incêndio, trancando-a nas escadas.  

- Não, eu estou aqui. Por favor, abra. – Batia na porta desesperada. – Por favor, eu encontrei o objeto, cumpri a tarefa.  

Ninguém respondia do lado de fora. Forçou a porta, mas era impossível abrir. Então subiu correndo para o décimo primeiro andar, ali encontrou a porta ainda aberta e saiu em disparada na direção dos elevadores, apertando todos os botões.  

- Rápido.... rápido... vamos lá - implorava. 

Para seu total desespero os números acima das portas indicavam que todos os elevadores desciam e nenhum subiria. Então se lembrou do elevador que ficava nos fundos. Os alunos quase não usavam ele, só os professores ou funcionários, então estava livre àquela hora. Correu para lá, apertou o botão seguidas vezes como se aquilo o fizesse chegar mais rápido. Assim que o elevador abriu as portas ela pulou para dentro, pressionou o botão para o térreo e esperou. Dava para sentir que estava impaciente, queria chegar logo e terminar com tudo aquilo. Infelizmente, o elevador não compartilhava da mesma pressa e com um forte solavanco parou.  

- O que está havendo? Qual o problema? – apertou de novo o botão do térreo, ele não se moveu. Tentou o do andar onde estava e nada. Mandou que abrisse as portas. Sem sinal. 

Era agora. 

Meu coração disparou, ela não parava de apertar os botões querendo que ele voltasse a se mover, mas o elevador tinha empacado entre o décimo e o nono andar. De repente a porta se abriu dando a ela a visão da parede do fosso e bem no topo tinha uma pequena abertura, provavelmente o chão do décimo andar. Se tivesse parado alguns centímetros antes, talvez conseguisse sair.  

- Há! Vamos lá eu quero ir pra casa. – reclamou pressionando o botão do térreo com toda sua força, até que ele afundou. – Eita.  

O que aconteceu depois passou muito rápido, as luzes se apagaram e na hora que ela ligou a lanterna o elevador começou a cair a toda velocidade. A sensação era a de estar no primeiro carrinho da montanha russa, só que sem o cinto de segurança e então de repente uma forte pressão atingiu suas costas e ela desmaiou. 

Despertou não muito depois. A sensação era de ter o corpo preso entre duas coisas muito pesadas, sufocava e as partes do corpo que conseguia sentir doíam até a alma, isso incluía as mãos que ela conseguia mover minimamente.  

 - Veio dali. Deve ser ela - alguém falou. 

Queria gritar e pedir socorro, fazer qualquer sinal de que ainda estava viva, só que nada além dos ouvidos parecia funcionar. De repente uma voz masculina calou a todos e deu sua sentença.  

- Vamos sair daqui. 

Então ela não ouviu mais nada.  

  ***

- Satisfeita? – perguntou. 

Estávamos do lado de fora, vendo a nuvem de poeira ainda densa esconder o que restara do elevador e.... dela.  

- Eles não te ajudaram – observei. – Você viu quando vieram te resgatar?  

- Cada detalhe. Vi meu corpo destruído, ouvi eles dizendo que eu não devia estar ali. Que era minha culpa eu estar morta.  

- Foi um acidente.  

- ELES CAUSARAM ISSO! – gritou apontando para onde um dia estivera o grupo. – Eles nos trouxeram pra cá, alguém me trancou nas escadas e me obrigaram a pegar aquele elevador velho.  

- Continua sendo um acidente – repeti. – Eles não tinham como saber que isso aconteceria.  

- Você fala como eles. Deve ter um bando de seguidores, não é? Vocês sempre têm e isso me enoja.  

- Escuta aqui garota eu estou de saco cheio dessa sua birra. Ok, você morreu, isso foi uma merda? Foi, mas acabou. Isso foi há 20 anos pelo amor de Deus. Você não tem nenhum direito de atacar as pessoas. Então me explica, qual o seu motivo de matar todas aquelas pessoas e prender suas almas no limbo?  

- Por que sim!    

- Justifique sua resposta!  

- Isso é uma piada pra você? Acha que pode fazer isso?  

- Claro, afinal eu já morri também, então que mal maior pode acontecer? Então agora é minha vez de te infernizar. Eu nunca mais vou deixar você em paz. quando olhar para o lado eu vou estar lá, quando pensar em pegar outra vítima eu vou estar lá, quando ficar vagando nos corredores assombrando os alunos EU VOU ESTAR LÁ! 

Seus olhos duplicaram de tamanho e ficamos ali nós duas em um cabo de guerra para ver quem desviaria o olhar primeiro.  

- Qual o problema hein garota fantasma? A ideia de ter alguém como companhia pela eternidade é tão ruim assim? – Minhas últimas palavras atingiram exatamente o ponto que eu queria.  

Depois de ver suas lembranças na sala de aula, ouvir o segurança e reviver seus últimos momentos literalmente sentindo tudo que ela sentia. Sabia o real motivo dela estar pegando aquelas pessoas e ela só me confirmou quando vi lágrimas em seus olhos.  

- Não sabia que fantasma podia chorar.  

- Cala a boca! – Ela urrou se afastando de mim. – Me deixe sozinha.  

Podia ver seus ombros tremendo enquanto ia na direção das escadas de incêndio, a segui, dando um pouco de espaço como tinha pedido. Parei na porta das escadas quando a vi sentada nos degraus. a cabeça escondida entre os joelhos.  

- Eu mandei IR EMBORA! – Voltou a gritar quando me viu parada.  

- Já disse que não vou. – Cruzei os braços. – Não importa o quanto você berre, xingue ou brigue comigo. Não vou embora.  

- Por que? Por que não vai embora?  

- Por que você me matou, lembra? – Fui até ela me sentando ao seu lado. – E também, por que é isso que amigos fazem. 

Ela me olhou como alguém que avaliava um inimigo.  

- Você não morreu. – Fungou. – Ainda não.  

Tive que segurar o palavrão na garganta e o engolir de volta. Eu sabia! Poderia voltar e sair desse sonho maluco. Mas como? 

Não.  

Ainda não podia voltar. Não enquanto ela continuar desse jeito, talvez a próxima pessoa que ela pegue não tenha a mesma chance que eu tenho agora.  

- Mesmo assim. Vou ficar aqui com você. – Estiquei minha mão e segurei a dela que levou um susto. – Desde que você queira ser minha amiga. Você quer?  

Ela demorou para responder, seu olhar se dividia entre meus olhos e nossas mãos.   

- Se você não quiser ser minha amiga, se não quiser minha companhia, eu vou embora. Nesse momento. Dou um jeito de voltar pro meu corpo e você vai passar o resto da eternidade sozinha.  

- Não.... eu... eu não quero ficar sozinha – choramingou. - Mas por que quer ficar com alguém como eu?  

- Sabe que eu também não sei? Quer dizer, o que aconteceu contigo foi trágico, eles não terem chamado o socorro foi uma puta sacanagem também, mas o que você está fazendo todos esses anos é muito errado. Te coloca como alguém pior que eles.  

- Não, isso não... eu só... 

- Não queria ficar sozinha? – Ela assentiu. – Olha eu sei como é ser tratada como uma esquisita ou nem ser vista, toda minha vida escolar até o ensino médio foi assim.  

- Você não sabe como é ser eu.  

- Na verdade eu sei sim, você me proporcionou isso, está lembrada? – Ela abriu a boca para dizer algo, mas engoliu as palavras. – Fora isso tem razão, eu não sei pelo o que você passou, as experiências. Ainda assim, comer todos os dias sozinha no refeitório ou ninguém querer fazer dupla com você na educação física e em trabalhos, isso é igual em todo lugar. Nos sentimos invisíveis e isso é horrível.  

- É verdade... me desculpe. -  Ela tirou a cabeça dos joelhos e se sentou ereta no degrau.  

- Tudo bem. –  Deslizei o braço por seus ombros, abraçando-a de lado. – Eu perdoo você.  

- É isso que amigos fazem?  

- Amigos de verdade.  

Ela me lançou um olhar triste e devolveu o gesto. Foi o abraço mais apertado que eu recebi na vida. Não sei quanto tempo ficamos ali sentadas na escada sem desfazer o abraço, mas foi o suficiente para ela se recompor.  

- Você precisa ir embora – falou, levantando – Não pode ficar aqui.  

- Nem você.  

- Eu não tenho pra onde ir.  

- Claro que tem, você precisa seguir em frente ir pra onde as almas vão.  

- Não sei se terá um lugar pra mim, eu fui uma pessoa horrível.  

- Escuta. Sei que você não perguntou, mas... sabe como eu consegui me enturmar? Consegui um grupo e tudo mais? – Ela negou, atenta às minhas palavras. – Por que eu não me deixei ficar presa ao que eu era. Não vou deixar de ser tímida, ainda morro de medo de falar em público, me sinto deslocada em um grupo grande. É normal, mas agora eu aceito isso e não fico me julgando por não ser sempre popular e, principalmente, não deixo que minhas inseguranças me impeçam de tentar.  

Olhou para mim e para o corredor lá fora.  

- Eu não consigo.  

- Se você não tentar, nunca vai sair daquele elevador. – Ela me encarou assustada, percebi que estava prestes a ter uma crise de pânico.  

- Então... eu... eu vou. É... vou sim.   

- Isso, você consegue!  

Ela assentiu, estufou o peito e foi até a porta. Parou e deu meia volta.  

- O que... 

- Pode segurar minha mão? – Implorou. – Por favor.  

- É claro que eu posso, boba. – Estiquei minha mão e entrelacei nossos dedos. – Você vai na frente.  

Ela assentiu e saímos das escadas. Foi quando percebi por que ela tinha parado, o caminho até o elevador estava cheio e não eram daquelas pessoas feitas de névoa. Eram as vítimas dela, havia gente de todas as idades, tamanhos e etnias. Tantas pessoas, que enchiam quase todo o andar térreo. Porém ela não parou, continuou andando entre todos aqueles rostos, aquelas vidas interrompidas. Pensei que poderiam atacar ou algo parecido, mas aconteceu o contrário; eles abriram caminho para nós. Quando alcançamos os elevadores, o segurança nos esperava guardando a porta. Ele sorriu para mim ou para ela, não soube ao certo.  

- Está pronta? – perguntou com o dedo no botão que abriria as portas de metal.  

- Ainda não. – Ela foi até o segurança e o abraçou. – Sinto muito, por favor... me desculpe.  

Ele ficou chocado por um momento, mas logo retribuiu o abraço.  

- Tudo bem menina. Está perdoada, o que passou, passou. – Ele desfez o abraço e secou as lágrimas dela. - O que importa é o que vai fazer agora. 

- Vou entrar e seguir em frente.  

- Escolha muito sábia.  

Em resposta ao que ela tinha dito, as portas do elevador se abriram em um sonoro “plim”. Ela respirou fundo uma vez mais e entrou. Naquela hora todas as almas que estavam nos observando literalmente foram sugadas para dentro daquela cabine pequena e sumiram. 

- Espera. – Segurei a mão do segurança. – Você não falou seu nome.  

- Bruno. Bruno Souza. – E então também desapareceu.  

Olhei para a mulher ali dentro, a mão no peito, respiração falhada e pernas trêmulas. Ela não conseguiria fazer aquilo sozinha, então entrei e a segurei até que tivesse se acalmado. 

- Obrigada – falou ela de novo. – E me desculpe.  

- Você precisa se decidir, vai agradecer ou pedir desculpas? – Brinquei e ela riu. Sua risada foi como uma lufada de ar fresco tanto para mim, quanto para ela. – E aí pra onde vamos?  

Ela olhou séria para o painel de botões ao seu lado e pressionou o décimo andar.  

- Sabe o que eu reparei. – Falei a fim de distraí-la. – A gente não se apresentou.  

- É verdade...  

- Nesse caso. Muito prazer, meu nome é Ágata. – Estendi a mão para cumprimenta-la.  

- Viviane. – Ela retribuiu o gesto no momento que a porta se abriu. – Foi um prazer conhecer você.  

E então senti algo áspero tocar minha mão e tudo desapareceu.  

  ***  

Acordei tendo meu corpo içado. Fui tirada de dentro de um buraco escuro e levada para um lugar amplo e claro. Havia tantas pessoas por ali que precisei fechar os olhos para não ficar enjoada.  

- Ágata... Ágata, consegue me ouvir? – Um homem perguntou andando ao meu lado.  

- Sim... – minha voz saiu terrivelmente baixa.  

- Maravilha, maravilha. Continue assim, garoto você vem com ela?  

- Sim! – Alguém se aproximou da maca e segurou minha mão. – Ei sou eu, Jonas.  

- Oi....  

- Converse com ela, a mantenha acordada – o homem mandou.  

- É... lembra o que aconteceu?  

- Não... 

- Você ficou presa no elevador. Parece que foi uma pane elétrica, ele travou entre o nono e o décimo andar.  

- Nono?  

- E o décimo. Os seguranças chamaram o resgate e eu fui atrás de você. Tentaram te tirar de lá mas você resolveu tirar uma soneca.  

- Se afaste. – O enfermeiro mandou. A maca balançou bruscamente e me colocaram na ambulância. – Entre, vamos logo.  

- O que... como...  

- O elevador caiu seis andares. A merda de seis andares e parou. Parou Ágata. - Ele sorria incrédulo pelo que aconteceu, revelando suas covinhas. 

- De...Depois.... 

- Depois a gente desceu igual maluco e... só que... não deu tempo - suspirou, como se doesse nele. - Aconteceu tão rápido, num momento eles estavam abrindo as portas e eu pude te ver pela fresta, no outro o elevador deu um solavanco e você caiu. Foi horrível.  

- O que importa é que ela está viva, e vai ficar tudo bem. – O enfermeiro colocou algo no meu rosto. – Não sei o que segurou aquele elevador, nem o que manteve aqueles destroços longe dos órgãos vitais, mas seja o que for salvou sua vida.  

Eu sabia exatamente quem tinha segurado aquele elevador. Talvez pudesse ter sido um anjo da guarda, mas meu coração dizia que não, que de algum jeito tinha sido ela. Em um último gesto de agradecimento.  


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