Yara, a história por trás da lenda
- kamilacosta02
- 1 de mai.
- 21 min de leitura
"Atenção! Essa história é uma releitura da lenda da Yara."
Que o deus Tupã me proteja, pois meu Túa não o fará mais. Estava perdida, não... amaldiçoada. Era isso só podia ser, todos da aldeia sabiam disso, diziam que eu era um presente dos deuses uma benção. Mas as costas dele eu era a criança que tirou a vida de sua isy ao nascer, eu era um espírito maligno mandado a terra pelo próprio Anhangá. O fato de ter nascido com olhos tão escuros quanto frutos de açaí servia como prova de minha origem demoníaca. Ainda assim minha em seus últimos momentos fez meu pai prometer que nunca deixaria que fizessem mal a mim. Acredito que só por causa disso ainda estava viva.
Contudo os deuses sabem o quanto eu tentei. O quanto luto para ser aceita, ser amada ou ao menos respeitada. Infelizmente acertar um papagaio no topo de uma árvore era mais fácil do que tecer uma cesta para mim. E ninguém conseguia entender isso.
- AIYRA! – Meu nome ecoou pela mata até meus ouvidos.
“Não! Ainda não”
Continuei me lavando no rio, tinha que me apressar não podiam saber...
- Minha filha? – Olhei para trás e meu pai estava na margem. Olhou para mim e para o
Ka’i dentro da minha bolsa. – Disse que iria pegar ervas. O Ka’i tem ervas no estômago?
- Não Túa. – Meu corpo se encolheu dentro do rio, a corrente me tranquilizava, mas ao mesmo tempo me dava medo. Medo por ser arrastada ou de enfrentar o homem que me esperava as margens.
- Saia do rio. – Ordenou.
Obedeci, vestindo o saiote que havia deixado na margem.
- Túa eu sinto muito. Não devia estar caçando. Me perdoe.
- Perdão? Você sempre busca meu perdão, mas nunca busca me orgulhar. Desrespeitando as ordens de seu pai e as leis da aldeia apenas por capricho. O que quer ao continuar caçando?
- Eu gosto, me sinto bem contribuindo com a comida em casa.
- Isso é serviço de seus irmãos e do seu futuro marido. Seu papel é ficar na aldeia, cuidar das nossas feridas, tecer cestas e cozinhar.
- Mas...
- Espero de verdade Ayira que essa seja a última vez que você sai para caçar. Entendeu?
- Sim Túa.
- Ótimo. Pegue seu Ka’i e vamos sair daqui.
Meu pai o Cacique Apoema era severo chegava a pensar… que os deuses me perdoem chegava a pensar que ele me odiava. Porém, durante todas as estações desde que me lembro ele sempre me dava presentes, sempre estava comigo quando era preciso. Ele se preocupava a sua maneira.
No dia seguinte a morte de minha isy ele me deu a uma mama de leite, mas sempre me vigiava cuidando de mim e chegou a me ensinar a usar a faca. Parou quando percebeu que eu já era capaz de acertar um animal a alguns passos de distância, matar e limpá-lo sozinha.
Além de mim eu tinha dois kyvy mais velhos, Acir e Porã. Eles não deixavam que outros tocassem em mim para fazer mal, mas pouco se importavam com as palavras cuja dor era maior do que a de uma flecha da pedra mais afiada.
Ele pegou meu arco e flechas e me fez carregar o corpo do Ka’i até nossa aldeia. Os homens que se preparavam para a última caçada do dia olharam minha caça e depois para mim. Mesmo que meu pai carregasse as armas eles sabiam que havia sido eu a matá-lo. Ninguém ali conseguia acertar um Ka’i bem entre os olhos estando a mais de 60 passos longos de distância. E me orgulhava disso, mesmo assim sentia o gosto da ira e da inveja no ar.
- Estamos chegando na estação das chuvas. – O xamã informou ao adentrarmos mais a aldeia. – Devemos nos preparar para ir às terras mais altas
- Já fiz isso, alguns dos nossos guerreiros foram até as terras que ocupamos na estação anterior.
- Já deviam ter voltado. Tem algo errado. – Insistiu o xamã. – E essa menina? Ela só dá trabalho tirando você da aldeia toda hora. Ela devia se casar, aprender a ser uma boa esposa. Já passou da hora.
- Ela será uma boa esposa, na hora certa.
- Ela acha que é um homem!
- Eu não acho não. – Deixei o Ka’i pendurado no cordão que cruzava nossa oca e encarei o Xamã. – Os espíritos me deram esse nome, me nomearam guerreira essa é minha alma. O senhor feito de carne e sangue pensa em querer mudar a escolha deles?
- NÃO ME RESPONDA! Eu sou a sua ponte com os espíritos eu sei o que...
- Xamã! Podemos conversar em sua tenda? Em um local onde as mulheres não escutem? – Meu pai olhou para fora e viu as mulheres se aglomerando.
- É claro, meu senhor.
- Você cuide da sua caça, ela deve estar limpa quando eu voltar.
- Sim Túa.
E assim eles se foram. Nenhuma mulher entrou, todas se afastaram da nossa oca como se olhar para mim doesse aos olhos. Não me importei, havia um trabalho a ser feito e aquele Ka’i era especialmente peludo.
****
- Aiyra... Aiyra.
Acordei com alguém me chacoalhando. Tinha pegado no sono depois de terminar de limpar a caça. Abri os olhos e vi Irani, minha única amiga.
- Irani? O que houve? – Ela veio até mim e me deu um beijo da bochecha.
Olhei para o outro lado da oca, mas meu túa nem meus Kyvy haviam voltado. Estava sozinha.
- Nada. Eu vi você chegando com sua nova caça hoje. Acertou em cheio de novo. – Brincou deitando-se ao meu lado.
- Foi sorte. – Disse sorrindo. – Guardei uma parte pra você.
- Mesmo?
- Sim, foi o maior em dois dias posso compartilhar com minha angiru.
- Se você fosse um homem as mulheres mataria para ter filhos com você. Sabia disso?
- Agora sei. Talvez na próxima vida. - Sorri, senti meu rosto ficar quente.
- Ainda bem que é só minha. – Ela afastou meu cabelo se levantando logo em seguida. - Seu dia de nascimento está chegando certo?
- Sim, por que? – Ela pegou uma bolsa do lado de fora e tirou algo barulhento de dentro.
- Fiz pra você, é um colar de contas. Usei as mais bonitas. – Peguei o colar e sai a luz da lua para vê-lo melhor.
Era grande, feito de palha trançada e sementes vermelhas, pretas e brancas, perfeitamente redondas. Quando o vesti e ele conseguiu cobrir meus seios.
- Isso é lindo. A quantos dias estava fazendo isso?
- Não importa. Ele combinou com você.
- Obrigada Irani.
Eu abracei e fiquei feliz em sentir que ela me retribuía o gesto. Não era sempre que se ganhava algo tão trabalhado de alguém, era uma coisa especial. Muito especial e eu o guardaria até o dia da minha passagem.
De repente o silêncio da noite foi irrompido por um grito agudo.
- O que foi isso? – Irani se afastou tentando achar a origem do som.
E então rapidamente nossa aldeia foi tomada pelo caos. Os homens saíram de suas ocas com lanças e arcos em punho, enquanto outros se aproximavam vindos do Norte. Seus corpos pintados de vermelho, lanças maiores que eles tão afiadas que refletiam a luz noturna.
Vindos do sul meus irmãos passaram por nossa oca, armas em punho prontos para enfrentar os invasores. Mas não sem antes me dar alguma ordem.
- Vocês duas tragam as mulheres pra cá e tranquem a porta. - Acir ordenou segurando dois arcos em mãos.
- Espera. Esse é meu arco. - Percebi.
- Você não precisa dele.
- Acir me dê esse arco! – Ele o entregou à Porã e segurou meu braço com força.
- Eu mandei trazer as mulheres e crianças pra cá! Faça o que eu mando Kyvy.
- Aiyra vamos. Você não precisa dele. – Irani me puxou. Meus irmãos se viraram indo em direção a luta enquanto eu conseguia tirar umas de suas facas.
- Não saia de perto de mim. – Irani concordou e eu segurei sua mão enquanto corríamos pela aldeia levando as mulheres e crianças para minha Oca.
Por alguma sorte divina ninguém havia nos visto, mas foi só entrar na última Oca que ela desceu pelo rio. Havia duas mulheres lá dentro, porém seus espíritos já haviam deixado seus corpos e tinham tanto sangue sob elas que não conseguia entender de onde viera.
- Vamos voltar... agora! – Dei a volta e corremos para nossa Oca.
Quando estávamos a alguns passos vi um homem entrando.
- Calma. – Parei e ela percebeu a mesma coisa. A levei para a lateral da Oca. – Fique aqui.
- Cuidado. – Ela sussurrou.
Me aproximei silenciosa com a faca em mãos, ele ainda não tinha me percebido e eu o atacaria assim se eu não visse outro pegando uma das mulheres.
- Soltem ela. Soltem ela agora!
Os dois se viraram surpresos com minha chegada. Apontei a faca para eles sem medo de suas lanças.
- Saia de perto dela, AGORA!
- Você fala bem alto pra uma mulher. Devia aprender a ficar quieta. – Ele correu na minha direção.
Desviei da sua lança e com um giro a cortei com a faca bem na base. Fui parar atrás dele e chutei suas costas jogando-o para fora da Oca.
- Suma daqui seu... – Uma mão agarrou meus cabelos enquanto algo bati nas minhas pernas e eu caia.
- Quem pensa que é mulher? – Outro homem apareceu na minha frente, enquanto um segundo me segurava. Eram três? Onde estava o terceiro que eu não o vi?
- ME SOLTA! – Tentei acertar qualquer um deles com a faca mas eles a tiraram de mim. – Me solta!
- Líder olha o que eu achei do lado de fora? – Ele trazia Irani pelos cabelos, seus olhos tinham dobrado de tamanho.
- Não... por favor... solta ela... eu faço qualquer coisa.
- Agora ficou mansa? - O homem que parecia ser o líder do grupo segurou meu rosto e o ergueu para que eu olhasse em seus olhos. – Você vai fazer o que eu quero de qualquer jeito. Leve ela para você meu irmão.
- NÃO! – Me debati tentando me soltar mas só parecia ficar mais apertado.
- Quieta! – O líder me acertou um tapa.
- ELES ESTÃO VINDO! DOIS DELES. – O guerreiro que segurava Irani a colocou sobre o ombro. – Vou na frente.
- NÃO! – Gritei. – Solte ela, solte, SOLTE!
De repente duas sombras taparam a entrada da Oca, dois corpos cobertos de sangue com facões na mão.
- Solte nossa irmã. – A voz de Porã ecoou pela oca.
O homem me soltou e junto com seu líder atacaram meus irmãos. Eles rolaram para o lado de fora, um misturado de braços e pernas brigando. Mal conseguia saber quem era quem, mas assim que identifiquei o líder eu peguei a facão que deixaram cair e pulei sobre ele. Envolvi minhas pernas pela sua cintura e quando ele se ergueu passei o facão pela sua garganta.
Sangue jorrou pelo corte caindo sobre Acir.
- Tire ele de cima. Tire. Tire. -Usei meu corpo para cair de lado levando-o comigo.
Rapidamente me levantei e assisti Porã ser apunhalado na perna. Seu urro fez meus pelos se arrepiarem, nunca o havia escutado gritar assim. Mas enquanto Acir limpava seus olhos do sangue derramado peguei meu arco e acertei o outro guerreiro. A flecha atravessou sua cabeça pela lateral e ele caiu morto.
- Porã! Porã! – Fui até ele e tirei a faca do ferimento.
- AH! O que está fazendo mulher?
- Deixa eu te ajudar, calma. – Corri para dentro da oca e peguei algumas das folhas que secavam. Voltei e a amarrei em cima do furo.
- Saia! – Acir tocou meu ombro e eu me afastei. – Vou levá-lo para dentro, as mulheres estão aí?
- Sim.
- Então vão poder cuidar dele.
- E o Túa? Onde ele está? Irani foi levada precisávamos ir...
- Não. Ele está ocupado salvando nossa aldeia. Não tem tempo para ir atrás das suas amigas.
Acir me deus as costas e adentrou a toca, pude ver quando algumas mulheres vieram ao seu socorro. Tinham de curar os guerreiros que as salvaram. Olhei em volta e havia Ocas pegando fogo, crianças chorando gritos de batalha ao longe e aos meus pés dois homens com o dobro de meu tamanho mortos por mim.
-- Eu...eu…. mortos....
Não. Tinha que me concentrar. Irani era minha prioridade tinha de achá-la. Peguei meu arco e flechas e os pendurei nas costas, apanhei o facão e corri com todas as forças pra floresta.
Conseguia ver pegadas, muitas e sempre de animais, mas hoje havia muitas pegadas de homens também. Misturadas umas às outras, porém uma estava era mais funda e com passos curtos, sinal de que carregava um peso extra. Eu a segui sem pestanejar adentrando a mata escura sem medo de homem, bicho ou curupira. Só parei quando as pegadas sumiram as margens do grande lago.
- Pra onde você foi? – Preparei uma flecha e olhei ao redor. Ele havia fugido pelo lago? Isso não teria sido um bom plano carregando alguém, sem contar que Irani era a melhor nadadora que eu já vira ele não teria conseguido segurar ela ao entrarem na água.
“Onde você se escondeu seu...”
Algo pulou da água e me derrubou.
- Você seguiu um homem até a floresta? Deve ser bem corajosa, ou está querendo outra coisa.
Onde ela está? Onde está Irani? – Ergui meu joelho acertando a coisa entre suas pernas. Ele se encolheu e eu o acertei um soco que o fez cair ao meu lado.
Me levantei e apontei meu arco bem no espaço entre seus olhos.
- Onde?
- Você durou mais do que uma mulher dura em uma noite como essa. – Ele cuspiu o sangue acumulado em sua boca pelo soco. – Pena que sua Irani não é tão resistente.
Eu não sei descrever o que senti naquele momento, foi uma mistura de raiva com negação. Ela não podia ter partido. Ainda não ele tinha de estar mentindo. Levei a mão ao colar que havia me dado e senti as sementes cobertas pelo sangue do homem que matei. Sem aviso minhas pernas perderam as forças e eu caí de joelhos, as lágrimas inundando meu rosto.
- O que fez com ela? – Choraminguei.
- Eu me diverti, mesmo que tenha sido tão rápido. – Respondeu e meu espírito se contorceu dentro do meu corpo. – Posso mostrar o que eu fiz se quiser linda.
Ele tocou meu ombro e a pele não foi o suficiente para segurar o que rugia em meu peito e eu deixei que ele tomasse conta de mim. Segurei a flecha e o acertei nas coisas dele.
- AH! – Ele berrou.
Me levantei agarrando seu pescoço e o joguei no chão, a cabeça bateu na água. Tirei a flecha de seu corpo e a pressionei no pescoço.
- PARE. Por favor.... por favor... pare...
- Ela também pediu isso? Ela deve ter implorado para que você parece também. Você o fez?
O homem não respondeu.
- VOCÊ O FEZ?
- Não... – Ele resmungou tão baixo que eu quase não pude ouvir.
- Foi o que eu pensei.
E então com uma mão segurei sua cabeça para trás e com a outra perfurei seu coração. Seu espírito deixou o corpo em míseros dois piscares de olhos. Uma morte rápida para quem não merecia. Me levantei ainda fraca e com o coração batendo rápido, tinha que encontrar. Deixei seu corpo na margem assim como minhas armas e pulei no lago.
Ali tudo era escuro e mal conseguia ver um palmo à minha frente, mesmo assim continuei procurando. Segui a corrente que levava a um rio. Ele não teria deixado seu corpo na superfície correndo o risco de encontrá-lo e dar a nossa aldeia um motivo para retaliar. Ele era um guerreiro como dizia suas tatuagens, a tinha jogado na água para que ela o levasse embora. Segui ao sul pelo rio sendo arrastada, parte pela correnteza parte pela força que me restara, mas não há encontre em lugar algum.
- Pra onde você foi? Quão longe você a levou? – Perguntei para a lua ao voltar a superfície. – Por que a esconde de mim? Deixe achar ela!
Sai do rio e me deitei encarando o céu estrelado e a lua cheia. Imediatamente lembranças dela inundaram minha mente, quatorze estações juntas e agora ela tinha sido arrancada de mim. Estava quebrada e agora torcia para que ao menos um único pedaço a encontrasse.
Onde quer que ela estivesse...
****
Acordei sob um teto de madeira e palha. Havia uma pequena fogueira no centro da Oca já quase apagada.
- Filha? – Um homem que eu não tinha visto saiu das sombras e se ajoelhou ao meu lado.
- Túa. – Me levantei e pulei em seus braços. Aquilo era tão bom.
- Minha filha. – Ele me segurou em seu colo como quando era criança, sua mão alisava meu cabelo.
- Sinto muito pai. Sinto tanto, eu só... eu... – De repente as lembranças do que havia acontecido voltaram de uma só vez e meu coração voltou a pesar e as lágrimas a caírem.
- Tudo bem pequena. Chore, pode chorar. Os deuses também choram sua perda e de toda a aldeia. – Ele secava minhas lágrimas enquanto mantinha meu rosto erguido. – A estação das chuvas começou duas luas antes do previsto.
- O que? Mas... mas e a aldeia?
- Não perdemos quase ninguém. – Ele beijou minha testa. – Agora pode descansar.
- Mas... eu quero sair. Respirar ar puro. – Funguei enxugando as lágrimas. – E como estão Acir e Porã? Estão bem?
- Estão bem. Mas você não pode sair.
- O que? Por que?
- Aiyra você matou três homens. Isso foi longe demais.
- Pai, eles matariam meus irmãos. Eu os ajudei.
- Se fosse a hora deles então os deuses o teriam levado, se não fosse eles o teriam protegido e sozinhos venceriam sua batalha.
- Eu...
- Você fica aqui. Uma mulher cuidará de você até o dia de seu casamento, até lá não deixará essa Oca.
- Eles iam machucar as mulheres, pegaram Irani.
- Chega! – Ele me empurrou e eu cai deitada. Ele se levantou ajeitando o cocar. – Você é uma mulher e não vive como uma. Saber lutar e caçar já era ruim o suficiente, agora tirar a vida de um igual? É passar de todos os limites.
Uma mulher apareceu na entrada, segurando um amontoado de folhas secas. Ela se curvou para o meu pai e sentou-se próximo a mim.
- Ela cuidará de você a partir de agora. Não saíra daqui até que eu permita ou você se case. Até lá, ensine a ela o que uma boa esposa deve ter.
E ele se foi sem dizer mais nada. A mulher me encarou de cima a baixo e colocou as folhas entre nós.
- Separar em tiras iguais. Começar a trançar.
Não a respondi. Queria sair correndo pedir perdão a eles, mas ao mesmo tempo não me arrependia de ter matado eles. Iam matar meus irmãos e eu só os protegi, por que era tão errado? Ninguém me respondeu e acho que ninguém o faria. Estava sozinha com meus pensamentos.
O dia passou em completo silêncio. Não conversamos só traçamos as cestas, tira após tira. Outra mulher nos trouxe comida e água, sair da oca apenas para fazer minhas necessidades e a minha guardiã sempre me acompanhava sem tirar os olhos de mim.
Quando a noite finalmente chegou meus dedos estavam ásperos e parecia ter milhares de saúvas mordendo minhas pernas. Não tomei banho, não quis jantar apenas me deitei sobre a esteira de palha e deixei que o sono me levasse para longe.
****
Kyvy... Kyvy. – Despertei com Acir me chamando.
- Acir! Você está bem? – Me estiquei para o abraçar, mas ele negou se afastando.
- Escuta, a gente sabe o que aconteceu com Irani. As águas trouxeram o corpo dela de volta para nós e Porã achou que você tinha que ser a primeira a ver ela.
- Sim mas.... não posso sair.
- Está acompanhada e ele não vai ficar sabendo se formos rápido.
- Tudo bem.
Me levantei colocando o colar que havia me dado, dei uma olhada para minha guardiã e ela me encarava com os olhos arregalados. Meu irmão já me esperava do lado de fora, abri a boca para dizer algo mas acabou não conseguindo e levei os dedos ao colar em busca de forças para desobedecer mais uma vez.
- Vá. – Ela falou. – Você salvou eu e minha isy, vá atrás dela.
- Obrigada. – Ela assentiu e virou as costas para mim deitando para o outro lado.
Sai da oca e corri atrás de Acir. Entramos na floresta e usando a pouca luz que entrava pela copa das árvores seguimos na direção em que o sol se punha. Não demorou muito para encontrarmos Porã, apoiado em uma árvore a perna com folhas e palha protegendo o ferimento.
- Ela está lá. – Ele apontou para um local mais a frente. Olhei para lá e vi um monte coberto por folhas de palmeira. – Eu achei mais respeitoso cobrir ela.
- Aguyje! – O abracei agradecida. – Muito obrigada.
Corri até ela e quando cheguei perto o suficiente para tropeçar nela o chão sob meus pés afundou. Consegui me segurar na borda do buraco e quando olhei para baixo havia lanças afiadas e com pontas brancas.
- Veneno... Acir! Porã! AJUDA! – Gritei, as mãos escorregando a terra úmida e cheia de folhas. – RÁPIDO POR FAVOR.
- Por que ajudar você? – Acir foi o primeiro a se aproximar. – Você é a melhor guerreira da aldeia, consegue sair daí.
- Irmão! Por favor.
- Não! Você nos humilhou. A pior coisa foi você ter matado eles. Era nosso papel, nosso dever proteger você e as mulheres não o contrário.
- Acir... Porã, por favor. Eu imploro nunca mais vou por a mão em um arco ou faca. Então me tirem daqui. – Acir chutou terra em mim e tive que fechar os olhos, mesmo assim uma parte entrou nos meus olhos e aquilo doía.
-- Você é uma mulher errada. Só seu nascimento foi uma dor enorme para nossa família e ainda cresce querendo ser alguém que não é. – Ouvi a voz de Porã falar bem perto de mim. – Diremos ao papai que você morreu ao tentar caçar uma...
Ouvimos o som de um galho se quebrando. Os dois se calaram ouvindo atentamente o farfalhar das folhas. Era apenas o vento ou algo mais? Não conseguia abrir os olhos, piscar doía, mas senti o vento se mover rapidamente quando algo saltou pelo buraco onde eu estava e atingiu meu irmão.
- Porã! – Acir gritou. Sua voz quase inaudível em meio aos rosnados e gritos do irmão mais velho.
Era minha chance. Ainda sem conseguir abrir os olhos usei todas as minhas forças para agarrar a terra e enfiei os pés na parede lisa do buraco. Como um animal escalei para fora. Enfim com as mãos livres limpei a terra o máximo que pude sem água e vi o que acontecia. Uma massa de músculos e pêlos amarelos tinha os dentes cravados na garganta de Porã. Era uma îgûara*. Acir lutava com ela tentando tirar suas presas do irmão, mas já era tarde demais, Porã já não gritava mais. Tinha sido vencido. Acir tirou a faca da cintura e acertou as costas da îgûara, de novo e de novo. Até ela também cair sem vida sobre o corpo de nosso irmão mais velho.
- Isso é culpa sua! – Ele berrou. Os olhos em fogo contra mim. – Culpa sua! Você é um mal que assombra nossa aldeia desde o dia de nascimento. Você devia ter morrido no lugar da mãe. Mas eu vou concertar isso por ela, por meu irmão e por nossa aldeia. Seu espírito corrompido vai voltar para o lugar mais profundo do submundo.
Acir me atacou a faca em punho. Desviei uma vez, duas, ele não parava era incansável. Minhas palavras não chegavam até ele nem minha dor, eu o amava também não queria sua morte nem o mal de ninguém. Tudo aquilo não era justo comigo, eu só queria poder viver como sempre sonhava. Livre.
Ele tentou me acertar pela lateral, consegui me defender com um pedaço de tronco caído e isso fez sua faca ficar presa na madeira. Com o mesmo tronco acertei sua mão que fez um barulho estranho e o fez recuar. Aproveitei a distração e dei um impulso acertando-o um chute nas costelas. Acir caiu sobre a mão machucada e ela terminou de quebrar.
- Chega irmão! Temos que voltar, levar Porã para a aldeia, para o pa...
- Não permito que o chame assim! – Ele pulou em cima de mim como um bicho do mato. Distraída não consegui desviar e bati a cabeça com força em uma raiz. – Vou te matar.
Ele me acertou um golpe no rosto e aquilo me fez ver estrelas, depois um na barriga. Eu me encolhi e ele se levantou. Vi ele ir buscar a faca, precisava agir rápido, muito rápido. Olhei em volta procurando por qualquer coisa que servisse quando ele segurou meu pé me arrastando no chão até ele. Acir prendeu minhas pernas com a sua e pressionou a faca contra meu pescoço.
- Que nem os deuses queiram você, que seu espírito se corroa de culpa até sua próxima vida e outras além dela.
- Sinto.... sinto muito... – As lágrimas escorriam por meu rosto e antes que a faca fizesse o corte fatal acertei uma pedra na sua cabeça com toda força.
Ele perdeu os sentidos enquanto caia para o lado. Rastejei para longe e me levantei observando-o. O sangue já escorria por todo seu rosto se acumulando no chão.
- Não.... não... por favor não... você também não.
Fui até ele e o segurei com todo o cuidado que conseguia com as mãos tremendo. Coloquei uma delas em seu pescoço e não sentia seu coração.
- NÃO! Não... Acir... irmão.... por favor.... foi um acidente me perdoe. Tupã Deus criador de tudo e todos, por favor salve meus irmãos eu imploro. Leve-me no lugar deles.
- O FEZ MULHER?! – Alguém apareceu gritando atrás de mim. Quando olhei eram caçadores da minha tribo e meu pai os liderava.
- O que fez Ayira?
- Eu... eles...
- Ela os matou.
- Não! Foi... foi um acidente.
- Há uma îgûara morta também. – Eles olharam para o corpo de Porã próximo ao buraco.
- Eles tentaram me matar pai. – Deixei Acir e fui até me ajoelhei a seus pés. – Acredite em mim meu pai. Eu...
- Não... me chame de pai. Você nunca devia ter nascido, sua mãe deu sua vida apenas para você matar seus irmãos.
- Tú – Ele me acertou um tapa.
- A lei para quem mata um guerreiro sem ser um é perder a mão. – Ele segurou minha mão e a faca a centímetros dela. – Você matou dois, mas eu a perdoei. Agora você trás seus irmãos para a floresta, mente e os mata. Isso é imperdoável, é... eu nem consigo falar.
- O que o chefe quer fazer? – Outro caçador perguntou.
- Vamos entregar ela aos deuses. Segurem-na e prendam seus membros.
- Não... não... isso não.
- Rápido. – E os caçadores vieram até mim, usaram suas cordas para me prender como um animal e o mais forte me colocou sobre os ombros. – Amarre a boca e sigamos para o rio.
- Túa... meu senhor... pai... – O caçador me calou com uma corda e pedaço de madeira.
Eles se apressaram na direção do rio e não importava o quão alto eu gritasse ou a força que me remexia, ninguém se importava. Era meu fim.
O dia estava quase raiando quando chegamos às margens do grande rio, agora muito maior com as chuvas.
- Hoje eu acabo com minha linhagem. – Meu pai gritou bem alto. – Hoje eu perdi dois filhos, mas hoje também acabou finalmente com o mal disfarçado de mulher que rondava nossa aldeia, que se infiltrou em minha vida roubando a vida da minha esposa. Hoje é o fim do nosso sofrimento!
Não me movia mais, apenas aceitei que aquela era a última vez que veria a luz do dia. Então quando o guerreiro me jogou fechei os olhos e deixei a correnteza me levar para longe e para o fundo.
****
- Aiyra... Aiyra. – Despertei no meio da floresta com Irani ao meu lado. – Acorda temos que ir.
- Ir? Pra onde?
- Ao lago, pegar sementes de Lótus lembra? Minha irmã está com desejo e eu não quero deixar meu sobrinho passar vontade.
-- Sim. Vamos.
Ela segurou minha mão enquanto me levava pela trilha, contudo sua mão não tinha o calor reconfortante de que me lembrava e seu sorriso parecia... triste.
Chegamos ao lago e ela imediatamente tirou sua saia e pulou na água, procurando as plantas cujas flores haviam deixado para trás sua haste cheia de sementes. Havia tantas flores tantas cores diferentes, que era quase impossível ver de longe as plantas certas.
- Entre, a água está ótima.
E foi o que fiz. Sonho ou não eu a estava vendo de novo, uma última vez. Me aproximei de Irani e ele me ofereceu uma das sementes.
- Essa está meio dura. – Falei mastigando.
- É verdade. Melhor procurar outras. – Ela saiu nadando vasculhando planta por planta.
A seguia de perto com medo de perdê-la de vista a qualquer instante e meu coração quase pulou para fora do peito quando ela mergulhou.
- Irani! – Mergulhei atrás dela. Consegui segurar seu tornozelo e puxá-la de volta para a superfície. O problema é que eu não olhei para onde estava indo e acabamos batendo em uma das grandes folhas.
- Aí! – Irani riu com o acidente.
- Por favor, não faça isso de novo. Me assustou.
- Assustou? Por que?
- Só não suma da minha vista desse jeito.
- Eu não vou a lugar algum. – Ela se aproximou colocando a mão sobre meu coração. – Ainda estou aqui.
Mas... não é justo. Eu devia ter sido mais rápida, tinha que ter protegido você.
- Você protegeu. Durante tanto tempo, mas já chega. Não se culpe isso não vai mudar o passado.
Ela segurou meu rosto entre suas mãos e encostou nossas testas, enquanto eu a abraçava com todas as minhas forças. As palavras do meu pai ressoavam em minha mente, sabia que todos tinha sua hora de partir voltar ao deus criador, mas não tornava a dor mais fácil de lidar para aqueles que ficavam na terra.
- Isso não importa mais. – Sussurrei. – Vou ficar aqui, com você.
- O que? Não. Não deve.
- Eu matei meus irmãos... eles tentaram me matar por inveja Irani. Inveja. Eu me defendi e... bom meu pai resolveu me condenar ao mesmo destino que eles. Ele me prendeu me jogou na parte mais profunda do rio. Acabou, eu...
- Não. – Ela me interrompeu se afastando. – Ainda não é sua hora. Você não morreu só está dormindo. Tem que acordar.
- Não quero isso. Quero ficar aqui, com você. Não tenho mais família lá só você. Por favor não me mande embora também.
Senti meus olhos arderem com as lágrimas. A encarei e vi seus olhos refletirem as estrelas. Não queria deixá-la foi a única que me viu como uma igual não um monstro que matou a mãe no parto. Olhou através do muro, viu meu espírito e o entendeu, o amou assim como eu amei o seu. E eu sabia que sua lembrança permaneceria para sempre comigo, assim como a lua aparece todas as noites ela estaria lá para me guiar nos momentos mais obscuros da minha jornada. Segurei sua mão entrelaçando nossos dedos.
- Meu coração e espírito são seus Irani.
- E os meus são seus... – Ela se esticou e me deu um beijo. – Yara
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Diferente do que esperava eu acordei, aparentemente ainda não era minha hora e os Deuses haviam me dado uma segunda chance, ou espécie de castigo. Pois despertei e não tinha mais pernas, em seu lugar havia um enorme rabo de peixe. Escamas douradas que pareciam brilhar com a luz solar. Respirei fundo e para minha surpresa estar embaixo da água não foi um problema, foi na verdade muito mais fácil.
As cordas já haviam sido levadas pela corrente e os piras passavam por mim como se eu não estivesse ali. Não, não era isso, eu era parte daquele lugar. Eles não vão atacar ou estranhar seu igual e eu tinha um rabo de pira agora além de respirar embaixo da água. Movi a cauda imitando os peixes próximos e aquilo era tão simples, tão natural como se sempre tivesse feito parte de mim. Enfim, desde o dia do meu nascimento eu me senti eu mesma, podia fazer qualquer coisa ir aonde quisesse.
Eu era livre.



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