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A velha


Você definitivamente vai pensar mil vezes antes de ajudar alguém. Aquele dia ficou marcado em seus sonhos ao nível de passar noites acordando assustada, e seus pelos se arrepiando só de lembrar o que tinha visto.

Aconteceu a umas duas semanas atrás, mas o cheiro e as sensações continuavam bem vivas em sua memória. Você estava no shopping, era só mais um dia comum no trabalho e já estava mais do que cansada quando a loja fechou. Depois de ajudar no fechamento do caixa, você e mais duas colegas resolveram pegar comida em um restaurante que ficava a 5 minutos do shopping. Assim pegou sua bolsa, guardou o celular dentro da roupa, andar por Osasco depois das dez da noite não era para qualquer um, mesmo assim vocês três foram. Era um ótimo restaurante. 

Subiram a Avenida da Faculdade com a companhia de alguns carros apenas. As aulas só voltariam em 2021 devido a pandemia, ou seja, a rua estava apenas com as luzes dos postes. 

- Você viu aquele cliente de hoje à tarde? – A mais nova do grupo perguntou. 

- Qual deles? Tivemos vários. – Você responde olhando disfarçadamente para os lados. 

- O doido, aquele que quase entrou no provador feminino. – Explicou ela. 

- Há! – Manuela e você lembraram juntas. 

- Acho que ele tinha bebido todas. – Você comentou rindo, lembrando do homem totalmente alterado que precisou expulsar do provador, pois ele tinha até pego roupas para experimentar. – Ou tava drogado, sei lá. 

- Falando em drogado. – Manu chamou atenção para ela. – Sabem quem foi pego com drogas no trabalho? 

- Não. Quem? – Você perguntou curiosa, agora prestando atenção em um carro estranho que vinha em baixa velocidade. 

- O Davi da Casas Salvador. 

- O que?! – Você não pode deixar de dar total atenção a essa bomba. Se perguntando milhares de vezes como não tinha ficado sabendo disso. 

- Quando foi isso? – Agata, a mais nova perguntou com os olhos arregalados. 

- Ontem de tarde. Mandaram não comentar nos grupos, mas já tá geral sabendo da notícia. 

- E ele? Foi preso? Demitiram ele? – Agata voltou a perguntar, você não sabia se prestava atenção na bomba ou no carro. 

- Claro que foi demitido. Fora que levaram ele pra delegacia na hora, mas depois disso eu não sei o que aconteceu não. – Manuela explicou.  

- Vamos logo. – Você segurou as duas pelo braço e as puxou. Não suportava mais aquele carro e a sensação inquietante de estar sendo seguida.  Parou apenas ao entrarem na Autonomista, a avenida principal da cidade com iluminação decente e várias pessoas. 

- Que isso doida? 

- É fome. – Você brincou entrando no estacionamento do Pátio Shopping. 

As duas te seguiram tirando um sarro com a pressa, olhou para trás mais uma vez e viu o carro parado próximo a calçada pegando um passageiro. Era só um táxi. 

- Ih Paula acho que deu ruim. – Manu apontou para o restaurante e as demais lojas. 

- Ah não... – Agora mais perto você conseguiu ver a placa branca com letras garrafais pretas que dizia: “Fechado devido a pandemia” - Não acredito que andei até aqui pra sair sem comida. – Você bufou já pensando nas listas de restaurantes ou fast foods e nenhum lhe agradou. 

- E agora? Querem descer até o W.W? Tem uns restaurantes lá dentro. – Agata sugeriu. Contudo só de pensar em descer toda a avenida até o outro supermercado já te cansou. 

- Nem pensar. Vou pra casa e peço algo de lá mesmo. – Você ajustou a alça da mochila enquanto voltava para o ponto de ônibus. 

- Mas você topou jantar com a gente. 

- Sei disso, mas não topei fazer caminhada noturna. – Você olha o relógio de pulso e só de ver a hora o sono bateu.

- Ok, ok, amanhã é nossa folga mesmo a gente se encontra no shopping?  

- Trabalhamos a semana inteira no shopping e você quer passar a folga também? – Manu ria da sua discussão com Agata. 

- Meninas não vamos brigar, podemos ir ao parque amanhã. É aqui do lado, pode ser? – Manuela sugeriu apaziguando as duas. 

- Por mim tudo bem. Depois do almoço? – Você pergunta tentando enxergar o número do ônibus. 

- Isso. Combinado então? – Manu pergunta já dando sinal para o ônibus que vinha a frente do seu. 

- Ok. – Você e Agata respondem ao mesmo tempo. 

Manuela se despediu com um aceno e se foi no ônibus, o seu não demorou a sair do terminal e entrar no seu campo de visão. Você dá o sinal se despede e vai embora. Estava cansada de ficar em pé o dia inteiro e não via a hora de cair na cama. 


Dia seguinte 

Você estava saindo de casa, parada na porta do elevador verificando se suas coisas estavam todas dentro da bolsa e que não havia esquecido as máscaras quando viu um senhor parado no estacionamento. 

- Senhor? – Você se aproximou do morador que estava ofegante e com as mãos nos joelhos. - O senhor está bem? 

- Oi... moça... estou bem. Só... estou velho para carregar essas sacolas. 

- Deixa eu te ajudar. 

- Não, eu tenho um neto estava indo buscar ele. Meu telefone descarregou. – O senhor te explicou mostrando o celular desligado no bolso. 

- Eu ajudo a levar pra cima. – Você se abaixou e pegou as sacolas mais pesadas. – O senhor leva essas duas que sobraram. 

- Não precisava, mas obrigada. 

- Por nada. Vamos pro elevador, qual o seu andar? 

- É o 16. 

- Olha é bem alto esse. Eu moro no quinto. 

- E qual seu nome moça? 

- Paula. O senhor é? 

- Davi. Toda arrumada assim, vai encontrar alguém Paula? – Ele perguntou chamando o elevador.

- Vou encontrar umas amigas. 

- Há. Então cuidado, o tempo está estranho pro lado do Vila Yara. Acho que pode chover. 

- Sério? Estranho não tinha nada disso na previsão de hoje. 

- Há! Essas internet não sabem de nada, eu sei o que eu vi. 

- Tem razão, não há prova maior do que ver algo. 

Você e Davi desceram do elevador e ele mostrou qual era sua casa. Ele bateu na porta algumas vezes e alguns segundos depois seu neto abriu a porta. 

- Vô? O que faz aqui em cima? Por que você não me chamou? 

- O celular. Ele acabou a bateria. – O senhor contou entrando em casa. 

- E você? Posso ajudar? 

- Sim, vim trazer suas compras e seu avô. – Você fala deixando as compras no capacho em frente a porta.  

- Desculpa meu vô ele tá ficando esquecido, muito obrigada por ter acompanhado ele. 

- Por nada. Preciso ir agora. – Você voltou para o elevador e finalmente saiu do condomínio, bem na hora que o ônibus passava. 

Você precisou correr um pouco mas conseguiu pegá-lo, era isso ou esperar até sabe-se lá quando para passar outro. 

“Onde você está? Já cheguei” – Uma mensagem de Manuela apita na tela do celular. 

“No ônibus. Daqui a pouco eu chego” – Você responde olhando para o relógio de pulso. Estava atrasada só alguns minutos. 

Graças ao pouco trânsito e o pé de chumbo do motorista, você chegou ao parque do Vila Yara em tempo recorde, e realmente pode ver como o céu estava cinza. Você desceu dentro do terminal e atravessou pelo mezanino, quase parando para ver as lojinhas. Quando você chegou ao topo da escada de ferro que dava na calçada do parque, alguém segurou seu braço. 

- Que? – Você se virou assustada. 

- Oi, chegamos juntas. – Era Agata. – Assustei você? 

- Óbvio. Vai chegando assim nas pessoas, não se faz isso por aqui não doida. – Você reclama se desvencilhando dela. 

Vocês duas desceram e viram Manu esperando no pé da escada. 

- Finalmente né. Atrasildas. – Ela reclamou bateu o indicador no pulso. 

- Foi mal. Eu fui ajudar um senhor do meu prédio, o neto deixou ele fazer as compras sozinho acredita? 

- O que? Sério? Nesta pandemia? 

- Pois é. 

- Tudo bem, sua justificativa é válida. E a sua Agata? 

- Almocei tarde. – Ela respondeu olhando para o celular. 

- Há! Tá, foi mal. Vamos? 

Você, Manu e Agata passaram pela lateral da escada e seguiram sentido o parque Continental. As três estavam distraídas conversando sobre baboseiras do serviço quando um vento forte as atingiu. As árvores do bosque ao lado balançaram e suas folhas voaram para rua, junto com poeira e terra. 

- Nossa, desse jeito não vamos nem conseguir abrir os olhos. – Você reclamou mantendo os seus bem fechados para que não entrasse nada. 

- Que meleca, disseram que ia fazer sol o dia todo? – Manuela xingou pegando os óculos de sol. 

- E é vento de chuva, bateu até um frio em mim em vocês não? – Agata completou esfregando os braços. 

- Já viemos até aqui só uma volta e o parque nem é grande. – Você não queria voltar pra casa sem ter passado um tempinho que seja ao ar livre, no meio do verde. Estava enjoada de ficar em casa e muito mais de trabalhar. 

- Na verdade é tão pequeno que o nome oficial é Bosque. – Manuela brincou fazendo pose com os óculos.

- Não importa vamos logo aproveitar esse bosque antes que a chuva chegue. – Agata entrelaçou um braço com Manuela e outro com você, juntas pareciam as três Marias indo para um passeio. 

Seria isso, se não fosse a coisa dentro de você que lhe fazia ajudar até o pombo machucado na rua. Quando viraram a esquerda seguindo a calçada você viu uma senhora alguns metros a frente. Ela usava roupas velhas o branco a muito tempo tinha deixado de estar limpo e sua perna parecia estar machucada pois mancava. 

- O que acha que ela tem? – Você pergunta preocupada com ela. 

- Não sei. Vamos entrar logo no parque a entrada é logo ali. 

- Agata! Ela precisa de ajuda. – Você apressa o passo até alcançá-la. 

Assim que se aproximou percebeu que havia algo muito errado com aquela senhora. Ela estava com os cabelos desarrumados, as roupas eram um farrapo sem contar o cheiro ruim que vinha dela. Mesmo assim você não a deixou. 

- Licença, a senhora quer ajuda? 

- Não, não precisa. – A voz da senhora saiu rouca e quase inaudível. Ela tentou se afastar, mas você não desistiu. Não conseguiria dormir à noite se não a ajudasse. 

Era claro que aquela senhora não estava em boas condições e aquilo a assustava. Como ela tinha ficado daquele jeito? De onde tinha vindo? Tinha alguma clinica ou casa de repouso ali por perto, suas roupas lembravam roupas de hospital. Só que seu estado não é de quem estava sendo bem cuidada. 

- Senhora... eu só quero te ajudar, você tem algum parente pra quem eu posso ligar? Ou veio de alguma casa por aqui, posso te levar lá. 

- Não... – Respondeu tentando se afastar. 

- A senhora precisa de ajuda, está mancando e suas roupas estão sujas, tem que trocar elas.

A mulher tentava desviar de você negando com a cabeça baixa, resmungava palavras desconexas que você não entendia. Tinha que ajudar ela, queria ajudar. O posto policial! Isso você podia levar ao posto policial ali perto, era melhor do que nada. 

Entretanto não conseguiu mover um músculo quando a velha virou ficando de frente para você. O que viu fez seus músculos travarem na hora. Havia um buraco aberto no meio da cabeça dela e você teve certeza de que algo branco e pequeno se rastejava lá dentro, em grandes quantidades. E então tudo pareceu piorar, o cheiro era de carne podre, seu rosto estava escurecido em uma parte e os olhos cobertos de catarata. Parte da roupa estava rasgada e caída deixando a vista a pele pálida e flácida por baixo. Foi preciso toda a sua força para não vomitar com aquela visão, os pelos do seu corpo se arrepiaram e um frio desceu por sua espinha. 

E então ela abriu a boca, mas não foi sua voz que saiu. 

- Ela não precisa de ajuda não! – E você congelou. A voz saiu alta e clara não era nada parecida com a voz rouca de antes, muito menos de uma mulher, não. Parecia de outra pessoa, outra.... coisa. Como se estivesse possuída. 

O sangue fugiu das extremidades do seu corpo fazendo suas mãos congelarem na posição em que estavam, enquanto o coração batia tão rápido que parecia sair pela boca. O suor brotava por todos os poros e nem o vento o fazia secar. Você não teve mais coragem para tentar entender aquilo, ou ajudar. 

A velha a encarou por alguns instantes apos seu aviso sinistro, você quase podia sentir suas mãos gélidas e enrugadas tocarem seu braço quando ela se virou. Ainda conseguia ver aquele buraco em seu crânio e enquanto ela ia embora como se tudo fosse normal, você não parava de se perguntar como raios aquela velha ainda estava andando.

Tirando forças e coordenação sabe-se lá de onde, você voltou para Manuela e Agata. 

- Vocês....vocês viram isso? Viram ela né? 

- S-sim. – Manuela estava pálida feito papel enquanto Agata ficava verde e precisou se apoiar no poste mais próxima para vomitar. 

- Vamos embora. - Você falou e as duas concordaram.

Manu levantou Agata e praticamente de braços dados voltaram para o ponto de ônibus a passos largos... Sem olhar pra trás, ou para a velha e o que quer que ela fosse.  










Conto por Kamila Azevedo.

Baseado em fatos.


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